Usando IA (LLMs e Agentes) para Pesquisa

Os LLMs e Agentes (como o do GitHub Copilot) avançaram muito e atingiram um ponto em que podem ser úteis para algumas atividades de pesquisa, amplificando nosso potencial.

Podem ser úteis mas não sem levar a retrabalho ou problemas de qualidade, é importante estar atento para isso e não se deixar levar pelo marketing dos fornecedores de serviços de IA. Veja este episódio de podcast ou esta palestra.

Uma atividade como a de revisão final de um artigo que está prestes a ser submetido, por exemplo, pode identificar algum detalhe que você e seu orientador deixaram passar. Este post, por exemplo, sugere o seguinte prompt: “Please review my near-final draft of a research paper. Please 1) proofread the paper, 2) fact check the contents, 3) perform consistency checking of terminology, Figure #’s, etc., 4) look for any logical fallacies, 5) find anywhere I should add or remove citations, 6) remove any em-dashes from the prose, and 7) list any other improvements you see as beneficial. Please list the results below as IMPORTANT or SUGGESTED changes”. Eu gosto de “em-dashes”, então eu retiraria essa parte do prompt, mas a ideia do autor é só dar um exemplo do que você poderia pedir a um LLM para fazer.

Minha expectativa é que esse tipo de uso gere algumas sugestões boas e outras ruins, e talvez fazer isso para todo o arquivo de uma vez traga piores resultados do que fazendo por partes. Mas se você passa batido fácil em algum desses problemas, e não consegue ser mais atento, pode valer a pena. Isso, claro, se você, como assumido de todo pesquisador, tiver apurado senso crítico para discernir o que de fato é um ponto fraco (e você e seu orientador passaram batido) do que é pura aleatoriedade da IA (LLMs, agentes, etc.). Por fim, você tem que revisar com cuidado, ponto a ponto, o que for sugerido pela IA.

Em geral, você só deve usar IA para atividades que você tenha um bom oráculo (como conhecimento sólido sobre o assunto, um compilador, uma forte suite de testes, um provador de teoremas, etc.) para avaliar se o que ela gera faz sentido, se precisa de ajuste, ou se seria melhor descartar. Se não tiver, é fortemente recomendado não usar IA para essa atividade. Não seria um uso responsável.

Para um pesquisador de ES, gerar código com IA também é tranquilo, já que temos os compiladores, testes, analisadores estáticos e dinâmicos, e, principalmente, a sua revisão criteriosa de todo o código gerado. Fazendo isso, você também está assumindo total responsabilidade sobre o código gerado, como deve ser.

Já no caso de uso da IA para revisar ou resumir um artigo que você não leu, escrito por outra pessoa, você não tem nenhum oráculo para verificar o que ela gera como resumo ou revisão, a menos que você depois leia o artigo com cuidado. Para fazer esse uso de IA sem ler o artigo é preciso muita fé numa tecnologia probabilística, e coragem para arcar com as consequências do percentual (5%? 10%? 20%? 30%) que vai ter de erro e imprecisão no que é gerado pela IA e que você não vai contestar; vai provavelmente absorver e passar a ideia errada adiante. Isso não é considerado um uso responsável.

Em resumo, se você não entender profundamente algo que a IA gerou, descarte ou invista tempo suficiente para estudar e entender profundamente o que foi gerado. Quase sempre a IA é muito convincente e pode facilmente lhe induzir ao erro se você não tiver conhecimento mais sólido sobre o assunto, a formalização, a linguagem, o framework, etc. Mais importante de tudo, o seu orientador é o seu orientador, não orientador da IA! Ele não pode investir o tempo dele para corrigir ou direcionar os trabalhos da IA.

No mundo acadêmico, esse e outros usos não responsáveis da IA podem levar a sérias consequências, com prejuízos para a sua formação, carreira e a conclusão do seu curso.

Assim, usem com ética e muito cuidado! Na dúvida, consulte seu orientador.

Seguem alguns problemas que eu já tive com o uso de IA e que podem lhe ajudar a entender melhor as recomendações acima:

  • Um aluno repassando direto para a IA meus questionamentos e solicitações de atividades, e repassando direto para mim as respostas da IA. Tive que dizer para o aluno que isso não era ético e que eu não poderia orientar ninguém dessa forma.
  • Um aluno entregando uma nova versão de um artigo com várias referências duplicadas (com diferenças mínimas na formatação dos nomes dos autores ou do nome do evento), quando na versão anterior as referências estavam perfeitas. Obviamente o aluno não prestou atenção nas minhas orientações e não revisou com cuidado as mudanças feitas pela IA. Se eu não tivesse notado, isso levaria à rejeição automática do artigo e a abertura de processo para banimento dos autores do evento ou do periódico para onde o artigo fosse submetido.
  • A IA sugeriu adicionar uma formalização matemática para especificar melhor o que foi dito em um parágrafo do artigo. O aluno, mesmo sem ter uma maior base em formalizações do tipo, aceitou a sugestão da IA, mas a formalização estava errada! Estava quase certa, mas errada, e o aluno caiu na explicação convincente da IA porque não tinha entendimento profundo. Se eu não detecto o erro a tempo, a gente iria passar vergonha por o artigo ter um erro básico. O artigo estava perfeito, a IA ajudou a introduzir um problema, com uma proposta atrativa mas errada.
  • Um artigo foi aceito, mas um dos revisores perguntou na revisão se a gente tinha uma prova matemática de uma determinada propriedade. Ao invés de responder que não tinha mas que iria trabalhar no futuro, o aluno repassou a pergunta do revisor para a IA, que prontamente gerou uma prova convincente da propriedade, usando um teorema famoso de combinatória. O aluno ficou convencido da elegante prova mesmo sem ter entendimento profundo sobre provas matemáticas. O problema é que a prova estava errada! O aluno levou algumas semanas para entender porque estava errada, depois de eu insistir que ela estava provavelmente errada mas que eu não teria tempo para entender e mostrar o erro, e que isso era tarefa que o aluno teria que realizar até para entender melhor toda a situação.
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